sábado, 2 de novembro de 2013

HISTÓRIA - JOÃO DE TORRES: Contrabandista de Montalvão e o primeiro cigano do Brasil

 Em 1574 João de Torres foi condenado às galés por prática continuada de contrabando em Montalvão. Alegando debilidade física conseguiu convencer D. Sebastião, que então reinava, a alterar a pena para degredo para o Brasil. Assim, juntamente com a sua mulher Angelina e os filhos, acabou por se tornar o primeiro cigano a pisar terras de Santa Cruz.
Nada mais se sabe acerca desta família de ciganos a não ser a informação de que o seu clã seria o dos Calons, um dos cinco clãs porque se distribuem os ciganos brasileiros.
A particularidade de ter conseguido a alteração da pena leva-nos a tecer algumas conjecturas a propósito do contrabando que se praticava em épocas mais recuadas e que, como veremos, era bem diferente do pequeno contrabando de carrego de que todos nos lembramos ainda e que perdurou até meados do século passado.
Convencer o rei a alterar a pena não era, seguramente, tarefa fácil. O nosso João de Torres teve, com certeza, de despender uma avultada maquia para convencer um conjunto de funcionários que, por sua vez, obtiveram a assinatura do rei. Uma tal capacidade financeira não foi conseguida a contrabandear pequenas quantidades de mercadorias carregadas em sacas. O seu negócio tinha de ter uma dimensão em maior escala.
Vejamos o que nos diz J. Pimentel, um autor que estudou o fenómeno no sec. XIX, escreveu ele na Revista Contemporanea de Portugal e Brazil, de Abril de 1860: Quem não tem visto a grande facilidade com que entre nós se faz o contrabando na raia de Hespanha? Só quem não tem visitado as terras visinhas da fronteira. Não são os objectos de pouco volume e de muito valor, como as rendas de França, e a orivesaria da Suissa que alli fazem o objecto principal do contrabando. É tudo quanto se quizer, sem attenção a volume, peso, ou valor; são os carros de trigo puchados lentamente pelos pacíficos bois, são as manadas de cavallos e muares, é o assucar de Havana, a agua-ardente de Zamora, o tabaco, as peças de lã e seda, é tudo quanto se deseja, com tanto que na Hespanha exista.

A introdução de cada artigo tem já taxado o prémio que deve pagar aos vigilantes pelo somno que elles devem dormir, ou pela distracção com que se devem affastar do logar da introdução. Tudo se acha perfeitamente regulado, e ensaiadas até as farças das tomadias extrategicas, que já não enganam senão os imbecis.
A descrição que este autor nos faz para uma época, em torno de 1856, pode ser aplicada a épocas anteriores, nomeadamente à época de João de Torres. Estamos, pois, em presença de um negócio em larga escala e apenas ao alcance de alguns que dispunham de meios e influência bem maiores que o romântico contrabandista de pé descalço que, quantas vezes, com risco da própria vida, se aventurava a atravessar, vergado ao peso das sacas, a atravessar a vau o rio Sever.
Não obstante, esta grande diferença de meios e de volume de mercadorias, a pequena história de João de Torres, ajuda-nos a perceber de quão longe vem a tradição contrabandista das gentes de Montalvão e da Salavessa. Se, em épocas mais remotas, o contrabando era um negócio atractivo e rentável, constituindo uma opção de vida, com o andar dos séculos e o aumento da repressão, esta actividade, acabaria por se tornar um recurso como forma de colmatar a extrema pobreza daqueles que se viam obrigados a abraçá-la.
João de Torres é hoje uma figura desconhecida em Montalvão mas, no Brasil tem direito a um prémio com o seu nome instituído pelo Ministério da Cultura destinado a premiar acções relativas à comunidade cigana.
Este pequeno apontamento sobre o contrabando em Montalvão suscita-me o retorno a uma ideia que defendi há algum tempo, aquando das comemorações dos 500 anos do Foral de Montalvão, e que é a possibilidade de as instâncias autárquicas locais e concelhias avançarem para a criação de um pequeno museu do Contrabando que permita recordar e manter vivas as memórias dessa epopeia de homens e mulheres que, ao longo de gerações, arriscaram as suas vidas nesse vaivém transfronteiriço para dar de comer aos seus filhos.

Jorge Rosa