segunda-feira, 19 de maio de 2014

OPINIÃO: Montalvão sem Médico

No fim da linha. Aqui, onde tudo termina. O país e a região. Montalvão, vila secular, com mais de 500 anos de história, situada no estremo do nordeste alentejano, ali entre o Sever e o Tejo, bordada por mil encantos, e abençoada com uma das mais belas paisagens deste interior esquecido, vivem (ou sobrevivem) cinco centenas de almas, na sua maioria idosos.
Nestes últimos anos, esta vila, tal como outras por esse interior fora, foram perdendo lentamente, a importância estratégico-militar que tivera outrora, com destaque para a posição geográfica dos seus castelos, de onde se avistava um vasto território inimigo, e que as tornavam em importantes praças vigilantes ao serviço da segurança do reino. Mas, como o inimigo passou a ser visto com outros “olhos”, o estado deixou de ver estas localidades como pontos essenciais da sua política territorial, abandonando-os à sua mercê.
Primeiro foi a emigração, que levou uma grande parte da mão-de-obra ativa para outras paragens, depois veio o encerramento da casa do povo, da escola primária e logo a seguir o fechou dos dois postos da guarda (GNR e Guarda Fiscal). Tudo aqui terminou. Restam os edifícios que serviram para albergar essas instituições e a memória dos que delas fizeram uso.
A população diminui, assustadoramente, levando consigo muitas atividades associativas, como o Rancho folclórico e a Banda de Música. Tudo aqui termina. Ficaram apenas as memórias daqueles que as poderem viver, sentir e amar!
Quando pensávamos que já não nos tirariam mais nada, pois então, como por arte mágica, deixamos de ter médico. Sem aviso prévio, para que a população não pudesse dizer nada, a um ato consumado.
Sim! O médico que vinha cá uma vez por semana, quando vinha, é certo, mas vinha, agora é nada. Quem quiser ir ao médico, que vá ao centro de saúde de Nisa (16 km) e alguns euros a mais, porque a extensão de Montalvão está esvaziada de funções. NÃO TEMOS MÉDICO!
A melhor solução até ao momento, para os casos de renovar as receitas dos medicamentos, faz-nos recuar muitos anos atrás, em que um administrativo vem recolher os pedidos dos utentes, para na semana seguinte vir a receita, assinada pelo médico. A burocracia cumpre o seu papel.
O concelho de Nisa que tinha ao seu serviço em 1999, uma equipa composta de 8 médicos e 15 enfermeiros em 10 extensões, a funcionar em pleno, agora tem 3 médicos e 12 enfermeiros, em 5 extensões a funcionar com limitações. Pergunto eu, o que aconteceu, entretanto? Para onde foram os médicos?
Pois se formos analisar os números, com maior detalhe, entre 1999 e 2011, constatamos que existem menos habitantes, e os que resistem, são mais velhos, portanto, necessitam de mais cuidados de saúde, como se pode conferir pelos números das consultas realizadas em 1999 e 2011:
Especialidades clinicas
Ano de 1999  
Número de consultas
Ano de 2011
Número de consultas
Medicina Familiar
29.855
29.070
Planeamento Familiar
664
317
Pediatria
1030
2026
Saúde Materna
129
167
Fonte : Pordata /INE 2014
Como se pode explicar que, sensivelmente, o mesmo número de consultas, possa ser executado por três médicos atuais, em vez dos oito de 1999. Algo vai mal, nestes números! Atualmente, cada médico tem, em média, a seu cargo 2483 pacientes, enquanto em 1999, tinham 1073 pacientes.
Precisamos de mais médicos, como é evidente! Um concelho tão grande, como Nisa, não pode e não deve ter ao seu serviço apenas 3 médicos, sejamos realistas.
Porque é que as autoridades locais não agem? A Junta de freguesia, concorda? E a Câmara Municipal e Assembleia Municipal?
Se for necessário lacem um abaixo-assinado, em prol da saúde desta gente, porque Montalvão precisa de “Mais saúde e melhor saúde”, não nos podemos resignar. Aqui, não pode acabar tudo, porque ainda existem pessoas e memórias. E fazem parte integrante de um país chamado Portugal!
E, sem pessoas e sem instituições, para que serve um território?
JOSÉ LEANDRO LOPES SEMEDO